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“Aos poucos, o Setembro Amarelo está conseguindo quebrar o tabu do suicídio”, diz psiquiatra

22 de setembro de 2017

Desde 2015, os brasileiros se acostumam à ideia de que setembro é um mês para refletir sobre suicídio – um problema crescente, conforme o Ministério da Saúde, que aponta aumento de 12% da taxa de suicídios nos últimos quatro anos no país (sendo a Região Sul, proporcionalmente, a que tem maior número de casos).

Numa reviravolta em relação à estratégia anterior, que consistia em evitar o tema para não estimular mais casos, entidades do setor concluíram que era preciso mobilizar a sociedade e lançaram a campanha de prevenção intitulada "Setembro Amarelo". No Estado, a Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul é uma das líderes desse esforço. Esta entrevista é com o coordenador do comitê de prevenção ao suicídio da entidade, o psiquiatra Rafael Moreno Ferro de Araújo. 

A experiência do Setembro Amarelo é recente: começou em 2015. Já dá para saber se a iniciativa está tendo algum impacto?
Eu acho que está, sim. Em questão de redução de suicídio, ainda não, e nem sei se vai reduzir, mas o assunto está sendo mais falado, há conscientização. Os eventos envolvendo o assunto aumentaram muito. Estamos falando mais sobre isso inclusive entre os psiquiatras. Estamos falando, por exemplo, sobre como o profissional se sente quando um paciente se mata. É uma campanha que está dando certo.

E o público em geral, está falando com mais naturalidade de suícidio?
Ainda não totalmente, mas aos poucos o Setembro Amarelo está conseguindo quebrar o tabu do suicídio. Aos poucos a imprensa também está mais livre para abordar o assunto.

Tradicionalmente, evitava-se falar de suicídio, com receio de que servisse de inventivo para o ato. Com o Setembro Amarelo, a visão mudou. A ideia anterior estava errada?
Falar no assunto não aumenta o risco. O que aumenta é, isso sim, dar detalhes sobre como foi um suicídio. Por isso orientamos a não noticiar qual foi o método usado na morte.

Antes, havia preocupação de não informar que a causa de uma morte era suicídio.
Isso mudou. A gente pode falar. Só não pode explicar o método. Outra coisa importante é quando se fala, por exemplo, que a pessoa se matou, digamos, por causa de dívidas. Ou seja, não se deve citar causas como se fossem únicas, ou então dizer que a pessoa era deprimida, bipolar, como se todo deprimido se matasse. Não se deve permitir associações reducionistas.

O que houve para que se mudasse essa concepção?
Os pesquisadores tinham muito medo de sair perguntando quem deseja se matar, pelo risco de induzir, muito com base no Efeito Werther, referência ao livro de Goethe que inspirou uma onda de suicídios (Os Sofrimentos do Jovem Werther). Com isso, aboliu-se o tema, e virou um tabu. Mas, como o suicídio vem aumentando, mata mais gente do que o HIV e, em alguns países, mais do que os homicídios entre os jovens, percebemos que é preciso falar mais sobre o tema. Falamos muito sobre prevenção de HIV, sobre prevenção de acidente de trânsito, e pouco sobre suicídio.

Foi o próprio aumento dos suicídios que mostrou que a estratégia anterior não estava dando resultado?
Exatamente. E daí saiu uma pesquisa mostrando que capacitar as pessoas e conscientizar a população sobre o suicídio reduz as taxas.

Quando celebridades se matam, às vezes há uma romantização do suicídio. Nesses casos, o cuidado deve ser diferente?
Não se deve romantizar o suicídio. Há uma pesquisa, na Coreia do Sul, sobre o suicídio de ídolos adolescentes. Lá, eles noticiavam como é que a pessoa fazia, mostravam fotos, não estavam nem aí. E, entre quem se identificava com aqueles ídolos, principalmente jovens, houve ondas de suicídios iguais. Não dá.

Como as pessoas que convivem com um familiar ou amigo deprimido, que parece em risco, devem abordar o tema?
Temos de entender que o suicídio, em geral, é secundário a uma complexa combinação de fatores, inclusive genéticos, e que, em determinado momento da vida, normalmente precipitado por algum estressor, a pessoa vai lá e tenta o suicídio. A primeira coisa é não tratar como uma opção. As pessoas dizem: “Foi uma escolha dele se matar”. O que a gente entende, na verdade, é que quem se mata quer só aliviar uma dor que está muito intensa naquele momento.

O suicida, em geral, tem a capacidade de flexibilização cognitiva, de pensar em outras alternativas, reduzida, em função da depressão, que diminuiu muito essa capacidade. A pessoa deprimida não consegue ver muitas possibilidades para resolver seu problema, reduz a uma, duas opções, e aí alguns põem o suicídio no meio. É importante a população entender isso, e entender também que, quando alguém fala em suicídio, tem de ser levado a sério. Normalmente as pessoas dizem: “Quem avisa não se mata”. Há pesquisa que comprova que isso é um mito. Tentar o suicídio não é algo que se faz para chamar atenção.

Até porque a chance de novas tentativas costuma ser alta, não?
Sim, apesar de não ser uma profecia de que quem tentou uma vez vai tentar de novo. A maioria das pessoas tenta só uma vez. Infelizmente, a maior parte acaba conseguindo de primeira. É uma parcela, que não é muito grande, que vai tentar de novo. Mas, se há tentativa prévia, aumenta muito a chance de haver uma segunda.
As pessoas têm de tomar muito mais uma postura de escuta do que de dar conselho, porque em geral os conselhos são furados.

Então, como ajudar a evitar o suicídio?
A pessoa fica assim: “O que eu vou falar?”. Mas a questão não é o que falar; é como tu deves escutar. As pessoas têm de tomar muito mais uma postura de escuta do que de dar conselho, porque em geral os conselhos que as pessoas dão são furados, “Vai passar”, “Não pensa nisso”, como se fosse fácil.

E tem alguma atitude a tomar, como levar a um serviço profissional?
Se a pessoa está claramente com um plano de se matar, isso é uma emergência médica. Tem de fazer a mesma coisa que se faria se a pessoa estivesse com dor no peito e suspeita de infarto. O que acontece frequentemente é o indivíduo não querer ajuda, mas quando existe um alto risco de suicídio, a nossa lei prevê que se possa internar de forma involuntária. A gente pode agir contra a vontade da pessoa quando há risco iminente de morte. Os resultados variam, mas a gente sabe que algo entre um terço e 50% das tentativas ficam em casa, a família esconde. O que é errado. Temos de encarar a tentativa de suicídio como uma emergência médica.

Entre um terço e 50% das tentativas ficam em casa, a família esconde. O que é errado. Temos de encarar a tentativa de suicídio como uma emergência médica.

Familiares e amigos precisam tomar a iniciativa de levar a pessoa ao médico, então.
Exatamente. O suicida está com o estado emocional tão baixo que, por mais que tu fales que ele tem de procurar um psicólogo, ele pode até ficar mais deprimido com esse conselho. Daqui a pouco ele até tem vontade de ir, mas não tem força, não consegue nem pensar. Às vezes tem de ser na marra. Uma coisa importante é que pensar em se matar, apenas pensar, não é uma emergência médica. Isso é uma coisa comum na população. Fiz uma pesquisa com o colega Diogo Lara na qual entrevistamos 50 mil brasileiros, e cerca de 60% revelaram que já tiveram um pensamento passageiro de se matar.

Esse dado surpreendeu?
Sim, porque a maioria das pesquisas fala em números menores. Mas a gente viu um problema metodológico nos levantamentos anteriores, que são feitos com entrevistas face a face, em que provavelmente as pessoas seguram a resposta. Há pesquisas mostrando que, quando o assunto são coisas íntimas, o melhor tipo de entrevista é por questionários online, nos quais não há uma pessoa do outro lado para a qual se fala diretamente.

O simples pensamento em suicídio não preocupa?
Preocupa menos. Obviamente, quem nunca pensou em se matar em geral tem uma saúde mental melhor. Mas é uma minoria das pessoas que pensam em se matar que realmente chegam a fazer uma tentativa. A pessoa que pensou em se matar pode ser atendida pela equipe de atenção básica de saúde, pelo seu clínico, pelo posto de saúde. Porque o pensamento indica que alguma coisa não está bem, ainda que não seja uma urgência. A pessoa tem de entender que, se está pensando em se matar, alguma coisa não está legal. Em geral é depressão, ansiedade, uso de alguma substância.

Por que os suicídios estão aumentando no Brasil?
Uma das explicações possíveis é que os registros epidemiológicos estão melhorando no Brasil. A gente está registrando cada vez melhor os atestados de óbito. Isso poderia ser uma explicação para o aumento. E, depois, há vários outros fatores socioeconômicos que interferem no suicídio. Há pesquisa mostrando, por exemplo, que, quanto maior o IDH, maior a taxa de suicídio. E, quanto menor o IDH, maior a taxa de homicídio.

A crise econômica também é um fator?
Certamente. Em períodos de crise e também em períodos de aceleração econômica há mais suicídios. A possível explicação é que ambas as situações criam desigualdades mais rapidamente. Desemprego também é fator de risco. Desemprego é uma coisa muito grave. E, dependendo da profissão, o risco também aumenta. Há uma pesquisa grande mostrando que as profissões de mais risco são aquelas de escolaridade elementar, pessoas que trabalham em fábricas, com transporte, operadores de máquinas, agricultores. Assim como quanto menor a escolaridade, maior o risco. A minha explicação é que, quanto menor a escolaridade, provavelmente tu também tens menos estratégias cognitivas de lidar com os problemas.

Por que o Rio Grande do Sul é líder nacional em suicídios?
Estamos fazendo um artigo sobre isso, buscando explicações, mas não chegamos a conclusão nenhuma. Uma das hipóteses é que talvez a gente notifique melhor do que outros Estados. No Rio Grande do Sul, a taxa está estável em 10 suicídios para cada 100 mil habitantes, algo próximo da taxa mundial, que é 11. O que talvez tenhamos de questionar é por que os outros Estados têm taxa menor. O Rio Grande do Sul ainda tem a questão do agrotóxico, que aumenta o risco de suicídio, mas não é muito, porque, na verdade, é a profissão de agricultor que faz a taxa aumentar. Há a questão do isolamento social. A maioria dos suicídios se concentra no Interior. Na Região Metropolitana de Porto Alegre, a taxa é muito semelhante à brasileira: cinco suicídios para cada 100 mil habitantes. Em algumas regiões do Interior, justamente nas zonas rurais de menor densidade populacional, a taxa chega a 20 por 100 mil. O isolamento é um fator de risco.

Pode-se falar em grupos de maior risco?
Sim: os homens. No Estado, o principal grupo de risco são os homens com 40, 50 anos. Provavelmente porque o homem é mais impulsivo. E também porque não busca tratamento, é mais resistente, ainda mais em se tratando de saúde mental. E acho que o homem se comunica menos, ainda mais quando é o chefe da casa. Quando o homem está deprimido, ele se sente tão culpado, tão envergonhado, que prefere se matar a buscar ajuda.

E os idosos?
A taxa nesse grupo está crescendo, até porque a população está envelhecendo. Também tem a ver com o isolamento, a viuvez, o abandono pelos filhos, o álcool, a cultura de que é preciso trabalhar para se sentir útil.

Ao mesmo tempo há dados que apontam aumento de suicídio entre crianças?
Há suicídio na infância, mas o crescimento é maior em adolescentes. Essa faixa preocupa. As crianças, hoje em dia, não passam mais por dificuldades, e isso poderia estar despreparando-as para a vida real. No meu doutorado, estudo a questão da palmada e outros tipos de punição, e também abusos, com tentativas de suicídio. No mestrado, concluí que, em adultos, o tipo de abuso mais relacionado ao suicídio é o emocional. Ainda não terminei a pesquisa, mas acredito que os pais, em vez de estarem dando palmada, estão xingando mais os filhos. Houve a cultura de que a palmada é prejudicial, mas fiz uma vasta revisão da literatura e não encontrei isso. Ao mesmo tempo, há um crescente número de publicações mostrando que xingar a criança, exigir demais dela, faz muito mal. É melhor não bater na criança, mas acredito que se trocou algo que nada comprova que é prejudicial por algo que é muito prejudicial.

É mais difícil identificar os sinais de risco em um adolescente?
Eu diria que sim. Na adolescência, às vezes eles estão com poucos sintomas comportamentais, mas, em função da própria impulsividade, vão lá e tentam. É diferente do adulto, que tem um controle de impulso melhor. E há outras questões, como a autolesão. Cortar-se é um fator de risco, pode haver uma tentativa em seguida. Tem gente que diz que é coisa de adolescente se cortar, mas não é isso. É coisa de adolescente que está mal.

Qual é a melhor política pública de prevenção?
Restringir acesso a meios letais. É o que as pesquisas mostram. Um exemplo claro são as campanhas de desarmamento. Elas funcionam. Pessoas com arma em casa têm risco maior de se matar. Outra questão é aumentar o acesso ao tratamento. Quanto maior é o número de profissionais para tratar depressão, menor é o número de suicídios. A maioria dos municípios brasileiros não tem o número de atendimentos suficientes para tratar os casos de depressão. As pessoas não conseguem ter acesso ao tratamento de qualidade. O sistema de saúde deixa a desejar.

Há alguns meses falou-se muito no jogo Baleia Azul, uma espécie de gincana em que a última tarefa era matar-se, e também no seriado 13 Reasons Whi, que tematizava o suicídio adolescente. O jogo e a série podem ter impacto em tentativas de suicídio?
Para ter o dado mais completo, tem de esperar fechar o ano. Vamos ver se aumentaram as tentativas, principalmente de adolescentes. O seriado, isso se pode dizer, não serviu para diminuir os índices: pelo que sei, as emergências psiquiátricas de Porto Alegre ficaram sobrecarregadas à época em que se falava de 13 Reasons Why. O seriado mostra a ação do suicídio, o método, mesmo. Ele ensina, e isso não é recomendado. Quando a pessoa está na crise, ela acha que não tem jeito, mas a nossa experiência indica que dá, sim, para ajudar.

A internet é uma preocupação?
Sim. Sabemos que, quanto mais tempo a pessoa passa na internet, maior é o risco de comportamentos suicidas. Sabemos, também, que a dependência de internet age no cérebro como a dependência de álcool e drogas. Afeta todo o sistema de recompensa, de prazer. Se pessoas que têm vício em álcool e drogas têm maior risco de suicídio, daqui a pouco pessoas que têm outros vícios também terão esse risco aumentado. Mas há pesquisas mostrando que, quanto mais as pessoas se informam sobre suicídio, menor é a taxa, provavelmente porque também há muitos sites de proteção. 

Agora, o que impressiona na internet é como há sites e páginas ensinando a se matar. E recentemente saiu no jornal The Guardian uma reportagem mostrando que o Facebook não está filtrando essas páginas. Se ficarmos sem o apoio do Facebook, tudo fica bem mais difícil.

Pessoas que tentaram o suicídio e não morreram se sentem gratas por isso? Percebem que a situação era superável?
A maioria, sim. Lido com tentativas de suicídio diariamente. A grande maioria, 48 horas depois, já mudou de ideia. Tanto que a maioria das pessoas tenta só uma vez e não volta a tentar. Quando a pessoa está na crise, ela acha que não tem jeito, mas a nossa experiência indica que dá, sim, para ajudar.

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