No mês em que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa 36 anos, a trajetória de Haidee Barufaldi ajuda a contar parte da história da proteção à infância em Ijuí. Aos 80 anos, a primeira conselheira tutelar do município recorda os desafios enfrentados no início da implantação do Conselho Tutelar e avalia as transformações conquistadas ao longo das últimas décadas. Filha da professora Deolinda Barufaldi, que dá nome a uma escola do município, Haidee integrou as duas primeiras gestões do Conselho Tutelar de Ijuí. Ela lembra que os primeiros conselheiros foram indicados por instituições ligadas à comunidade e, posteriormente, eleitos pela população.
Em entrevista ao programa Rádio Ligado nesta manhã (21), Haidee contou que na época, porém, o trabalho começou em condições bastante precárias. “Durante nove meses trabalhamos sem receber salário. Usávamos nossos próprios carros, buscávamos combustível para atender as ocorrências e funcionávamos em uma pequena sala, com uma máquina de escrever e praticamente nenhuma estrutura”, recorda. Segundo Haidee, as denúncias mais frequentes envolviam violência física, abuso sexual e maus-tratos contra crianças e adolescentes.
Ela relembra episódios que ficaram marcados, como crianças obrigadas a caminhar de joelhos como castigo, outras submetidas a humilhações e situações de negligência em instituições de acolhimento. “Chegamos a encontrar crianças com roupas inadequadas, sofrendo castigos físicos e vivendo situações que hoje seriam impensáveis”, afirma.
Um dos casos que mais a emocionou foi o de uma adolescente vítima de abuso dentro da própria família. A jovem frequentava diariamente o Conselho Tutelar em busca de um ambiente seguro, até conseguir criar confiança para relatar o que estava acontecendo. Para Haidee, o diálogo sempre foi uma das principais ferramentas do trabalho.”É preciso acolher com amor. A criança precisa confiar para conseguir falar.”
Apesar de considerar que a missão do Conselho Tutelar continua sendo a mesma: proteger crianças e adolescentes. Haidee destaca que a estrutura disponível atualmente representa um avanço significativo. Ela participou recentemente da inauguração da nova sede do Conselho Tutelar de Ijuí e diz ter sentido um “ciúme bom” ao comparar as instalações atuais com as do início da década de 1990. “Hoje existe um espaço adequado para atender as famílias. Nós trabalhamos até em uma garagem e houve época em que nem banheiro tínhamos.”
Outro ponto lembrado por ela foi a busca por capacitação. Os primeiros conselheiros custeavam com recursos próprios as viagens e cursos de formação para aprender a desempenhar uma função que ainda era novidade no país. Haidee também lamenta que, ao final de sua gestão, toda a documentação produzida pelo Conselho Tutelar tenha sido descartada. Segundo ela, os registros permitiam dar continuidade aos atendimentos e preservar a história dos casos acompanhados.
“O Conselho é um órgão coletivo. Cada conselheiro precisa conhecer o histórico das famílias para dar continuidade ao trabalho.” Após mais de três décadas da criação do ECA, Haidee acredita que o maior aprendizado continua sendo o acolhimento humanizado. Para ela, proteger crianças e adolescentes exige sensibilidade, escuta e compromisso. “Tem que ter amor. A criança precisa sentir confiança para falar.”
A entrevista também trouxe lembranças da influência de sua mãe, Deolinda Barufaldi, professora que marcou gerações em Ijuí. Haidee atribui à educação recebida em casa o senso de responsabilidade e dedicação ao próximo. Aos 80 anos, ainda dirigindo, participando de atividades comunitárias e acompanhando a evolução do Conselho Tutelar, ela deixa uma reflexão que ultrapassa sua própria trajetória: “Não adianta viver preso ao passado. O que importa é o presente. É hoje que podemos fazer a diferença.”