Nascida em Ijuí, a engenheira mecânica Lara Eichler transformou um sonho em uma carreira internacional. Hoje, ela atua na China liderando projetos de construção naval para uma das maiores empresas globais do setor, coordenando equipes multidisciplinares e acompanhando todas as etapas da construção de embarcações destinadas a diferentes países. Em entrevista à Rádio Progresso, Lara relembrou que a paixão pelas ciências exatas surgiu ainda na juventude. Formada em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em 2010, ela contou que a profissão sempre foi sua primeira escolha, mesmo sabendo que ingressaria em um ambiente predominantemente masculino.
Após a graduação, trabalhou com projetos de engenharia, mas percebeu que queria uma rotina mais dinâmica. Foi então que encontrou uma oportunidade na Marinha Mercante. Ao descobrir um concurso para o Centro de Instrução Almirante Graça Aranha (Ciaga), no Rio de Janeiro, decidiu mudar completamente os rumos da carreira. Como já possuía formação em Engenharia Mecânica, pôde ingressar em um curso de adaptação com duração de um ano, realizado em regime de internato. A partir dali passou a atuar como Oficial de Máquinas em embarcações de apoio às plataformas de petróleo, iniciando uma trajetória que abriria portas para desafios ainda maiores. Segundo Lara, a busca por melhores oportunidades financeiras também pesou na decisão de seguir a carreira marítima. “Eu não venho de uma família rica. O aspecto financeiro foi, sim, uma motivação importante”, afirmou durante a entrevista.
Depois da experiência offshore, foi convidada para integrar a Svitzer Brasil, empresa especializada em operações de rebocadores portuários. Inicialmente assumiu a função de chefe de máquinas em Rio Grande e, posteriormente, tornou-se superintendente técnica, passando a gerenciar embarcações no Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. A oportunidade de atuar no exterior surgiu dentro da própria empresa. Ao visualizar uma vaga no setor global de novas construções navais, ligado à matriz da companhia na Dinamarca, Lara decidiu participar do processo seletivo. Sem grandes expectativas, enviou o currículo e acabou sendo aprovada após diversas entrevistas. Pouco tempo depois, embarcou para Zhuhai, na China, onde passou a atuar como assistente do gerente responsável pela construção de embarcações.Após um ano e oito meses, assumiu seu primeiro projeto internacional como gerente de obras em um estaleiro na Turquia. Depois da conclusão dos trabalhos, retornou à China, onde permanece atualmente.
Hoje, sua responsabilidade vai muito além do acompanhamento das obras. Lara participa da análise de especificações técnicas, revisa projetos, acompanha desenhos de engenharia, fiscaliza a execução dos estaleiros e pode sugerir alterações em praticamente todas as etapas da construção das embarcações.”O meu trabalho é garantir que o produto seja entregue com qualidade para a empresa. Eu acompanho desde os desenhos técnicos até o comissionamento e a entrega final dos navios”, explicou.
Apesar do reconhecimento profissional, Lara afirma que construir uma carreira internacional exige renúncias. Solteira e sem filhos, ela passa longos períodos longe da família, mudando de país conforme os projetos são concluídos. Segundo ela, a tecnologia ajuda a reduzir a distância, mas não elimina a saudade. “É uma vida bastante solitária. Hoje temos WhatsApp, chamadas de vídeo, conseguimos conversar todos os dias, mas não é fácil ficar longe da família.”
Além da adaptação profissional, também enfrentou barreiras culturais. O idioma foi o primeiro desafio, seguido pelos costumes locais e pela alimentação, especialmente durante o período em que vive na China. Mesmo assim, destaca que procura manter uma rotina equilibrada, encontrando tempo para praticar atividades físicas e conhecer novas cidades sempre que possível. Lara também deixou uma mensagem aos jovens que sonham em construir uma carreira internacional, especialmente aqueles que acreditam que oportunidades como essa são inalcançáveis. Para ela, o segredo está na combinação entre estudo, dedicação e coragem para tentar. “Tenha fé, trabalhe duro, estude e sonhe. Às vezes a gente acha que não vai dar certo e acaba nem tentando. Eu também achei que talvez não conseguisse, mas enviei meu currículo e a oportunidade apareceu.” Ela admite que nunca imaginou alcançar uma posição de liderança em projetos de construção naval ao redor do mundo.
“Hoje eu olho para trás e realmente não imaginava que chegaria até aqui. Trabalhei muito para isso.”
Em férias em Ijuí para rever a família, Lara disse ter se emocionado ao descobrir que sua história tem servido de inspiração para jovens da região interessados em seguir carreira na engenharia, especialmente mulheres que desejam ingressar em uma área ainda predominantemente masculina.