Pesquisa realizada pela Emater/RS-Ascar em 385 municípios do Rio Grande do Sul, com 571 famílias, buscou compreender porque as famílias migraram da atividade leiteira para outras atividades e os fatores que influenciaram nesta decisão. O levantamento foi apresentado nesta terça-feira (1/9), durante a 49ª Expointer, no Parque Assis Brasil, em Esteio. A pesquisa surgiu a partir de uma transformação já identificada na série histórica dos relatórios socioeconômicos da cadeia produtiva. Entre 2015 e 2025, mais de 55 mil produtores deixaram de produzir leite comercialmente no Rio Grande do Sul.
O extensionista rural Jaime Ries observa que a dimensão dessa mudança foi o que levou à realização de uma pesquisa específica em 2026. Ele acrescenta que os resultados deverão subsidiar o trabalho de Assistência Técnica e Extensão Rural e Social (Aters), além de contribuir para a formulação de ações e para o debate entre os diferentes agentes da cadeia produtiva. A pesquisa nasceu justamente de uma pergunta recorrente surgida a partir dos levantamentos anteriores. “Quando apresentávamos os relatórios, as pessoas queriam saber quem eram os produtores que estavam deixando a atividade, como eles produziam, por que haviam parado e o que tinha acontecido com essas famílias depois. Então, neste ano, aproveitamos para aprofundar essa questão”, explica Jaime.
O levantamento foi realizado durante o mês de julho de 2026 e teve quatro objetivos principais: descrever o perfil das famílias; caracterizar as condições em que produziam leite; identificar os fatores determinantes para a saída da atividade e conhecer as consequências dessa decisão. A partir dos resultados gerais, a Emater/RS-Ascar deverá aprofundar a análise dos dados por regiões administrativas da Instituição e pelos Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes). O objetivo é identificar particularidades territoriais. Dificuldades envolvendo estradas ou fornecimento de energia elétrica, por exemplo, podem ter maior peso em determinadas regiões do Estado do que em outras. “Precisamos entender essas diferenças para conseguir desenvolver ações a partir dos resultados”, afirma Jaime.
Mão de obra familiar
Um dos aspectos evidenciados pelo levantamento é a forte participação das próprias famílias na produção leiteira. Nas 571 propriedades pesquisadas, 1.485 pessoas estavam envolvidas na atividade, o equivalente a uma média de 2,6 pessoas por estabelecimento. Desse total, 1.384 pessoas, ou 93,2%, eram integrantes das próprias famílias. Apenas 101 pessoas, equivalentes a 6,8%, correspondiam à mão de obra contratada. Na média, eram 2,4 familiares por propriedade envolvidos diretamente na produção e apenas 0,2 trabalhador contratado por estabelecimento. Para Jaime, o dado ajuda a compreender também algumas das dificuldades identificadas posteriormente pela pesquisa, especialmente aquelas relacionadas à disponibilidade de mão de obra e à sucessão familiar.
Perfil estruturado
Outro resultado considerado importante é que os produtores que deixaram a atividade não formavam um grupo necessariamente menos estruturado ou tecnologicamente defasado. De acordo com Jaime, o perfil médio das famílias entrevistadas é bastante semelhante ao perfil dos produtores descrito na última edição do Relatório Socioeconômico da Cadeia Produtiva do Leite. A semelhança aparece em aspectos como escala de produção, padrão tecnológico, estrutura produtiva, tamanho do rebanho e produtividade. “Quando comparamos os indicadores, encontramos um perfil muito semelhante ao produtor médio do Rio Grande do Sul. Isso é importante porque mostra que a decisão de sair não pode ser explicada simplesmente por uma característica isolada da propriedade”, observa.
Motivações diversas
A pesquisa indica que a decisão de interromper a produção comercial de leite normalmente não acontece por uma causa única. Entre os fatores internos, os maiores percentuais aparecem na penosidade da atividade (66,4%), falta de mão de obra familiar (61,3%) e desinteresse dos filhos (37,8%). “A dificuldade para contratar trabalhadores, tanto pelo custo quanto pela disponibilidade, também influencia”, destaca o extensionista.
Já entre os fatores externos, aparecem com frequência o baixo preço do leite (79,3%), custo de aquisição de insumos (66,7%), e contratação de mão de obra (30,3%). Situações conjunturais podem se somar a essas dificuldades. Uma estiagem, a aposentadoria de um integrante da família ou a saída de um filho da propriedade, por exemplo, podem se transformar no elemento decisivo. “É um conjunto de condições que vai se somando. Geralmente, a decisão já vinha sendo pensada e, em determinado momento, acontece um gatilho. É um processo multifatorial”, esclarece Jaime.
Novos caminhos
O estudo também buscou compreender o que aconteceu com as famílias depois da saída da atividade. Embora pouco mais de um terço das famílias tenha relatado algum nível de redução da renda, boa parte dos entrevistados afirma estar satisfeita com as atividades que desenvolve atualmente quando compara a situação com o período em que produzia leite. Para Jaime, a percepção está relacionada também à rotina e às exigências da produção leiteira. Ao mesmo tempo, muitas famílias reconhecem o papel fundamental que a atividade teve em suas trajetórias.
“Há entrevistados que atribuem à produção de leite a possibilidade de financiar os estudos dos filhos, construir patrimônio e melhorar as condições de vida da família”, afirma. “Apesar desse reconhecimento, quando perguntadas sobre a possibilidade de algum integrante voltar à atividade leiteira, a expressiva maioria afirmou não ter essa intenção”, explica o extensionista. O índice daqueles que não planejam retomar à venda de leite chega a 79,8%, enquanto 16,2% afirmam que não sabem ou talvez retomem essa atividade, e apenas 4% responderam que pensam em voltar a comercializar o leite. A apresentação contou com a participação do presidente da Emater/RS, Claudinei Baldissera, e o secretário adjunto da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), Alexandre Scheifler.