Em meio às ações de conscientização do Setembro Amarelo, a psicóloga e médica psiquiatra Dra. Graciela Castro Sant’ Anna alertou sobre prevenção do suicídio, identificação de sinais de alerta e a importância de romper estigmas relacionados aos cuidados com a saúde mental.
Durante a entrevista a especialista destacou que pensamentos e comportamentos suicidas estão frequentemente associados a um sofrimento emocional intenso. Segundo ela, muitas vezes a pessoa não deseja propriamente a morte, mas busca interromper uma dor psíquica que se tornou insuportável.
Nesse contexto, a escuta atenta, o acolhimento e o acesso oportuno a profissionais e serviços especializados podem desempenhar papel fundamental na prevenção e no cuidado de pessoas em situação de crise.
Ao abordar os fatores de risco, Dra. Graciela chamou atenção para grupos que apresentam vulnerabilidades específicas, entre eles homens e idosos.
No caso da população masculina, a especialista observou que fatores culturais podem dificultar a expressão das emoções e a procura por ajuda. A ideia de que o homem precisa demonstrar força e esconder vulnerabilidades pode fazer com que muitos adiem a busca por atendimento profissional.
Já entre idosos e aposentados, questões como perda de vínculos sociais, isolamento e mudanças na rotina após o encerramento da vida profissional podem contribuir para o sofrimento emocional. A aposentadoria, especialmente quando não acompanhada de novos projetos e relações sociais, pode provocar sentimentos de perda de identidade e de propósito.
Como medidas de proteção, a especialista destacou a importância da convivência familiar e comunitária, da participação em atividades sociais, trabalhos voluntários e grupos de apoio, além do acompanhamento oferecido pela rede pública de saúde.
Outro ponto destacado durante a entrevista é que o sofrimento psíquico nem sempre é manifestado verbalmente. Por isso, familiares, amigos e pessoas próximas devem estar atentos a mudanças significativas de comportamento.
Entre os sinais que merecem atenção estão o isolamento social, o afastamento do convívio familiar ou profissional e a perda de interesse por atividades anteriormente prazerosas.
A especialista também mencionou estados persistentes de apatia, desesperança e falta de perspectivas para o futuro, além de alterações importantes no sono, ansiedade intensa e irritabilidade.
Queixas físicas recorrentes, especialmente quando persistem mesmo após avaliações clínicas sem uma causa orgânica identificada, também podem estar associadas ao sofrimento emocional e devem ser avaliadas adequadamente.
A presença isolada de um desses sinais não significa necessariamente que uma pessoa esteja em risco de suicídio. Mudanças intensas ou persistentes, entretanto, merecem atenção, diálogo e avaliação profissional.
A Dra. Graciela também abordou dúvidas comuns sobre quando procurar psicólogos ou psiquiatras e destacou que as duas áreas podem atuar de maneira complementar.
A psicoterapia auxilia no autoconhecimento, na compreensão das emoções e no desenvolvimento de estratégias para enfrentar conflitos, perdas, mudanças e outras dificuldades da vida.
Já o acompanhamento psiquiátrico envolve avaliação médica dos transtornos mentais e, quando houver indicação clínica, pode incluir tratamento medicamentoso.
Segundo a especialista, quadros de saúde mental podem demandar acompanhamento interdisciplinar, reunindo profissionais de diferentes áreas de acordo com as necessidades de cada paciente.
O objetivo é construir uma rede de cuidado capaz de oferecer acompanhamento contínuo, respeitando a individualidade e as condições clínicas e sociais de cada pessoa.
Para a médica, combater o preconceito relacionado à saúde mental também faz parte da prevenção. Reconhecer o sofrimento emocional e procurar ajuda profissional não deve ser interpretado como sinal de fraqueza.
No ambiente familiar e entre amigos, a recomendação é oferecer espaço para uma conversa aberta, evitando julgamentos, críticas ou tentativas de minimizar a dor apresentada pela pessoa.
Em situações de sofrimento intenso ou risco imediato, a orientação é procurar atendimento nos serviços de saúde e emergência.
Pessoas em sofrimento emocional podem procurar atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), além de serviços de pronto atendimento e emergência, conforme a gravidade da situação.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188. Em situações de risco imediato ou emergência médica, deve-se buscar atendimento de urgência.