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Policiais e bombeiros militares compartilham histórias de salvamentos após ciclone

25 de junho de 2023

O empenho e a coragem dos militares gaúchos se revelaram de forma ainda mais clara na última semana. Com o ciclone extratropical que atingiu o Estado em 15 de junho, diversas equipes foram destacadas para auxiliar nas missões de busca e resgate nos municípios afetados. O evento causou chuvas intensas, 16 mortes e grande destruição em 48 municípios.

O Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul (CBMRS) realizou mais de 2,4 mil salvamentos. A corporação também enviou agentes da Força de Resposta Rápida (FR), que é um grupo especial preparado para agir rapidamente em situações críticas.

Em Sapiranga, bombeiros da FR utilizaram um barco para conseguir acessar a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) que estava ilhada e salvaram 29 pessoas, incluindo pacientes e profissionais da equipe médica. Dentre os pacientes, havia idosos e cinco pessoas acamadas.

“A UPA era a parte mais isolada da cidade. Dois córregos haviam transbordado, formando uma corrente muito forte de água. Parecia um rio mesmo. Devido à correnteza, outro tipo de veículo não teria como chegar até lá. Só seria possível com embarcação. Nós fomos a última chance de salvação para aquelas pessoas”, contou o bombeiro Guilherme Olkoski.

Natural de Sapiranga, o militar já atuou em diversas situações críticas, mas ficou impactado ao ver o lugar onde nasceu devastado pelas enxurradas. “Como cidadão sapiranguense, é um misto de sentimentos ver a cidade nessa situação. Nós vimos, no semblante de muitas pessoas, gratidão pelo nosso auxílio e, ao mesmo tempo, luto pela perda de suas histórias. Muitos construíram suas vidas ali e tiveram que deixar tudo para trás e sair apenas com a roupa do corpo”, acrescentou.

Dentre tantas histórias comoventes contadas pelos bombeiros, uma das mais impactantes é a da cadela Laila, a única sobrevivente na casa de uma família que vivia em Maquiné. A residência veio abaixo na noite de quinta-feira (15/6) devido a um deslizamento de terra. Faleceram as três pessoas que moravam na casa: uma idosa, sua filha e seu genro. A cadela foi encontrada sob os escombros.

Segundo o CBMRS, a tarefa foi árdua, tanto para conseguir acessar a casa, quanto na remoção dos escombros, porque as estruturas ficaram colapsadas, exigindo muita cautela a cada movimento. Foram horas a fio removendo destroços. Após localizarem a primeira vítima, era necessário encontrar as outras duas.

“Havia um cachorro no meio dos escombros que estava com vida, porque os bombeiros escutavam um latido ao fundo. A presença da cachorra Laila naquele ambiente foi o nosso facilitador para encontrar as outras vítimas. É extremamente difícil não conseguir tirar as pessoas com vida. A gente busca sempre salvar as pessoas, mas foi emocionante ter retirado, do meio daqueles escombros, a cachorra. Salvar o cão simboliza o que restou daquela família. Para nós, é muito importante e acredito que também é significativo para os familiares das vítimas”, relatou o primeiro-tenente Fabrício de Freitas de Oliveira, que atuou nessa operação.

Consternado, o soldado Eder Oliveira, que também trabalhou nesse resgate, afirmou que é extremamente doloroso localizar as vítimas já sem vida, mas o resgate da cadela trouxe algum conforto aos parentes e à equipe que participou da missão.

“Para chegar até a Laila, havia uma grande profundidade. Somente cavando com as mãos seria possível acessá-la. Eu podia escutá-la, podia senti-la e não iríamos desistir dela de forma alguma. Quando você não consegue encontrar as pessoas vivas, mas você encontra uma cadelinha que é da família, vivia com eles e estava sempre perto, de alguma forma, para nós, se torna gratificante”, comentou. “Cheguei com ela no colo e entreguei para os familiares, que acariciaram o animal. Então, isso foi muito marcante e é por isso que a gente se emociona assim.”

Segundo os bombeiros, ao ser resgatada, Laila tinha apenas pequenos machucados na região dos olhos, o que parecia inacreditável, porque ela ficou, praticamente, 40 horas presa aos escombros. A cadela permaneceu próximo das vítimas e havia encontrado um local embaixo da pia da cozinha para se proteger. Após o resgate, familiares dos donos fizeram questão de ficar com a cadela e providenciaram todos os cuidados necessários.

Familiares das vítimas enviaram mensagens por meio das redes sociais do CBMRS agradecendo o empenho da equipe, que lhes permitiria sepultar seus entes queridos com dignidade.

Fonte: SSP RS
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