Em entrevista à Rádio Progresso, o professor Argemiro Brum, mestre e doutor em economia internacional da Unijuí, afirmou que o agravamento do conflito envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã vem gerando forte preocupação econômica mundial desde o final de fevereiro.
Segundo ele, trata-se de uma situação muito mais complexa do que outros conflitos regionais, pois o Irã possui grande capacidade militar e um sistema político radicalizado, que dificilmente cederá facilmente às pressões norte-americanas.
Brum destacou que o conflito ocorre em uma das regiões mais estratégicas do planeta para o petróleo. Países como Irã e Arábia Saudita controlam grande parte da produção mundial, o que aumenta o risco de impactos diretos na economia global.
Outro fator importante é o controle do Estreito de Ormuz, passagem marítima dominada pelo Irã, por onde circula cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo, além de diesel, trigo e componentes utilizados na produção de fertilizantes.
Com o agravamento da guerra, o preço do petróleo disparou, chegando próximo de 120 dólares por barril no último final de semana. No início do ano, o valor estava em torno de 60 dólares, praticamente metade da cotação atual.
O economista explicou que essa alta pressiona a inflação mundial, pois encarece combustíveis como diesel e gasolina, além de diversos insumos utilizados na produção agrícola e industrial. Mesmo sendo produtor de petróleo, o Brasil também sofre impactos.
Brum explicou que muitas refinarias brasileiras são antigas e não processam adequadamente o petróleo extraído do pré-sal, obrigando o país a exportar parte do que produz e importar outro tipo de petróleo para produzir combustíveis. Além disso, cerca de 30% do diesel consumido no Brasil é importado. Somente no ano passado foram adquiridos no exterior aproximadamente 17,3 bilhões de litros do combustível.
Segundo o professor, com a alta do petróleo no mercado internacional, o Brasil tende a repassar parte desse aumento aos preços internos. Destacou que já existe um alerta em relação ao abastecimento. A Petrobras passou a adotar cotas de venda de gasolina e diesel nas refinarias para evitar uma corrida por combustíveis.
Ele afirmou que, caso o conflito seja curto, os estoques brasileiros podem sustentar o abastecimento até abril ou maio. No entanto, ressaltou que os preços internos já estão defasados em relação ao mercado internacional, cerca de 47% no diesel e 19% na gasolina.
A Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul, Farsul, informou que produtores rurais vêm relatando dificuldades na entrega de combustíveis por parte dos Transportadores Revendedores Retalhistas, TRRs, desde o final da semana passada.
Segundo a entidade, distribuidoras afirmam que refinarias teriam suspendido a distribuição sem aviso prévio. A situação preocupa principalmente neste período de colheita da safra de verão, quando produtores estão colhendo soja e arroz e dependem diretamente do abastecimento de diesel.